
já há algum tempo, mas agora o cansaço é maior...
cansada de esperar, de ter esperanças de conseguir, de obter, de alcançar a paz no amor... o corpo doendo, a vontade de me abandonar na cama, na rede, no sofá, no chão, na vida... abandonar a - agora vejo, sinto - louca, insana idéia de ser feliz no amor, com este amor, com o meu amor...
julguei que era possível, os dados me pareciam favoráveis; agora, vejo que não: os dados que me iam sendo apresentados eram tão, mas tão instáveis, que eu jamais poderia me deixar levar pelo "pico", desconsiderando o "vale"... no terrível sobe-e-desce eu, com a desfaçatez de uma apaixonada, ia considerando só as subidas, como se só elas importassem, como se fosse possível passarem desapercebidas as descidas... e as descidas descem forte: me levam a lugares lúgubres e desesperançosos, escuros e sem cor/som/calor/odor...
em compensação, me agarro como insana às sensações das subidas, aos abraços, braços, laços, traços... que nem sempre delineiam a realidade, mas eu os vejo na direção que me apetece, na minha direção: braços abertos, se fechando em abraços aconchegantes, onde me aninho e me sinto pequena e grande, pequena pelo aconchego e grande pelo tamanho do amor...
ai, a-d-o-r-o me abandonar nos braços do homem amado, me sentir protegida e pequenininha, me deixar conduzir por caminhos... que caminhos! todos são fantásticos com o homem amado quando ele nos ama e se empenha em nos fazer feliz! que caminhos! até o caminho pra padaria é bom! pra farmácia, pra cozinha, pra aula, pro cinema, pra casa, pra cama...
mas esses caminhos têm que ser fantásticos também pro homem amado: o simples caminhar ao nosso lado deve ter , pra ele, o sabor de uma aventura, o gosto de fruta da estação... e que comamos da mesma fruta, pra podermos desfrutar do mesmo gosto!
falo, falo, mas o corpo doi; doi como se eu apanhasse hora sim, hora também; doi como se me derrubassem todo momento em que eu me atrevesse estar de pé e usufruir do amor, ainda que seja da lembrança dos bons momentos... me vejo toda cheia de marcas, de roxos, como se me agarrassem, arrastassem, empurrassem e sacudissem tentando me trazer à realidade: olha, isso não é amor, isso é só o seu amor, não há correspondência (biunívoca?), você está caminhando acompanhada, mas está só...
chega de desabafo, o tema é recorrente: o corpo doi do cansaço de ser um dia heroína, outro vilã; um dia essencial, outro supérflua...
e, ultimamente, me fazem sentir tão supérflua...