
Sempre julguei, e não de forma totalmente errada, que a admiração
sustentava o amor. Terminando um, não haveria como prosseguir o outro. Mas não,
a coisa não é tão enfática assim. A admiração é um dos componentes que mantém
de pé esse sentimento. Há outros, se bem que equivocados. Um deles são as
lembranças. As boas. Que turvam nossa visão objetiva e dão sobrevida ao que,
muitas vezes, já morreu.
Essas lembranças, as boas, que passaram, já eram (e, muitas vezes, nunca
foram) nos dão a falsa ideia de que ainda há o que se admirar, ainda há algo
que sustente o sentimento. E a pouca análise, ou nenhuma, faz com que o tempo
passe e a falsa situação se mantenha.
Mas nada dura para sempre. Até o nosso engano, a nossa necessidade de
nos manter enganados por puro conforto tem um fim. De repente, sem mais nem
menos, a gente vê que sobrou pouco. Que era necessário haver mais, até mais
lembranças boas, e mais recentes, para que o sentimento se sustentasse.
E o olhar vai ficando mais apurado, menos condescendente, desvestido do
sentimento que o fazia subjetivo e mais crítico na busca da objetividade. Aí,
meu caro, o bicho pega. Até dói. A gente consegue ver as fraquezas do outro; a
capa de herói (que nós outorgamos!) escorrega, o herói deixa de ser super, não
consegue voar e nem salvar-se a si próprio. Mas é a nossa libertação. Nos
alforriamos. Nos libertamos dos grilhões que a nossa memória afetiva nos impôs;
que a nossa necessidade de valorizar o
outro, para mantê-lo no patamar por nós escolhido, exigia. E, assim, o outro
sai também liberto, na sua real estatura, sem ter que nos provar nada.
O outro volta a ser só ele, simplesmente ele, sem os fru-frus que a gente
coloca e realçam, às vezes, o que nem existe. E a gente volta a olhar pro outro
com um olhar singelo, nem super nem subvalorizando o que vê. Ganhamos todos.
Então, se o olhar é de equilíbrio, dá pra ver se há admiração pelo que
ocorre no presente (o passado passou e não volta) e se há sustentação para
algum sentimento legal. Se não há, bye.
Melhor assim.