Ela olhava as pessoas, as revistas, a rua, e só reparava nos pés. Nos pés das pessoas que usavam salto alto, claro.

Mais tarde, foi além: começou a reparar no andar. No andar das pessoas que usavam salto alto, claro. No andar frágil, no andar seguro, no andar feliz, no andar incerto...
E pensou em como seria o seu andar quando o salto alto fizesse parte da sua vida: seria um andar mágico, quase levitando, sem esbarrar em nada nem ninguém. Teria sempre uma direção certa, sem dúvida nem medo.
Poderia, eventualmente, alterar o rumo. “Não, aqui não, prefiro ali”. Mas não porque se sentisse intimidada. Mudaria de rumo simplesmente porque ‘ali’ encontraria uma árvore em plena floração, e ‘aqui’ as flores ainda não estariam presentes. Mudaria de rumo porque talvez ‘ali’ ela encontrasse um cachorrinho sem dono, querendo brincar e, ‘aqui’, um preso ao dono pela coleira.
Seria tudo assim, certo e garantido, pois ela só conduziria os saltos a lugares e situações felizes.
Mais tarde, viriam os rapazes. Centenas. Milhares. E ela elegeria aquele que melhor se adaptasse ao seu andar, ao seu ritmo, e até à sua vocação de ir e vir sem rumo, pelo simples prazer de deixar isso acontecer.
O tempo passou. O sonho não. Saltos, saltos e mais saltos. De todas as cores e alturas. E ela nunca se deixou conduzir por eles. Ao contrário, tomou as rédeas dos seus passos e da sua vida.
Acho que vive feliz até hoje...
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