quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Liberdade vigiada


Liberdade de andar, com andador ou muletas…

Liberdade de tomar banho, em uma cadeira e com pouca mobilidade...

Liberdade de dormir, escorada em almofadas e remédios…

Liberdade de comer, mas na cama, na bandeja entregue

Primeiro banho com liberdade vigiada. Em cadeira especial, tudo já à mão, sensação de liberdade total ao lavar os cabelos, a água descendo sobre eles e o meu corpo. Passar o xampu, o perfume gostoso, as mãos friccionando o couro cabeludo, o xampu escorrendo com a água… dei risada como se fosse criança, Maria vem correndo da cozinha ver o que estava acontecendo, rindo também, você parece uma criança tomando banho, pela primeira vez, sem a mãe tomando conta! Eu, sempre rindo: sai daqui, Maria, não entra no banheiro! E era isso mesmo. Me sentia livre, mesmo tendo Renata, meu anjo da guarda, no quarto ao lado, atenta a qualquer barulho diferente, atenda às 2 vezes que o xampu caiu da banqueta.

Misturadas à água e ao xampu vieram as lágrimas. De agradecimento. De emoção. De poder desfrutar daquele momento. Tão íntimo e partilhado com pessoas amadas.

Mas as lágrimas são perigosas, parece que correm sempre pelo fio de uma navalha afiada, são de alegria e rapidinho, se não estamos vigilantes, são de tristeza. Pensei no partilhar, no dividir, participar, imaginei mãos amadas vivendo aquele momento, lavando os meus cabelos como algumas vezes (não tantas como eu gostaria) aconteceu. Aquele entregar-se a outra pessoa, aquele deixar-se cuidar, aquele abandono gostoso… enfim, aquele confiar, que isso é prova de muita confiança. E o gosto ruim travou minha garganta, embargou as lágrimas e as fez secar mesmo embaixo dágua. Agora, só desciam a água do chuveiro e o xampu. De lágrimas, meu rosto estava seco.

Quero viver, de novo, a intimidade-cumplicidade desse momento. Quero o meu corpo - curado e são, sendo tocado, ensaboado, acariciado, descoberto, desvendado, desvirginado, por mãos amadas. Mãos experientes do meu corpo, e às quais só o meu corpo baste. Mãos merecedoras do meu corpo, que o queiram com amor, doçura, carinho e tesão, com as cicatrizes que fazem dele que eu sou… mãos que queiram o meu corpo como querem a mim, à minha alma, ao meu espírito. Mãos experientes não dos anos terrestres, mas da maturidade de quem sabe que a vivência não surge de experimentar todo e cada fruto encontrado à beira da estrada. Experientes da maturidade de quem sabe selecionar os frutos, sabe quais valem a pena, quais quer degustar. Experientes da maturidade de não ser vulgar.


Finalmente, mas não menos importante: amigos e amigas que têm se manifestado, com seu carinho, vocês têm enorme mérito na minha recuperação. Luís, médico dedicado, que não deixa que a dúvida se aproxime de mim, muito obrigada. Pessoas há que, chegando tarde à nossa vida, logo, logo, conseguem lugar especial. Dia 20 veremos o fruto do seu trabalho e do meu esforço. Um outro tipo de dia 20. Vai dar tudo certo, espero que seja um dia especial.


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